quinta-feira, 5 de abril de 2012

Carta de Amor

Não mexe comigo, que eu não ando só,
eu não ando só… eu não ando só.
Não mexe não…
Não mexe comigo, que eu não ando só,
eu não ando só… eu não ando só.Eu tenho Zumbi, Besouro,
o chefe dos Tupis,
sou Tupinambá.
Tenho os Erês, caboclo boiadeiro,
mãos de cura.
Morubixaba, cocares, arco iris,
zarabatanas, curare, flechas e altares.
A velocidade da luz, o escuro da mata escura,
o breu, silêncio…
a espera.Eu tenho Jesus, Maria e José
todos os pajés em minha companhia.
O menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos,
o poeta me contou.Não mexe comigo, que eu não ando só,
eu não ando só… eu não ando só.Não misturo, não me dobro.
A Rainha do Mar anda de mãos dadas comigo,
Ensina o baile das ondas e canta, canta, canta pra mim.
É do ouro de Oxum
que é feita a armadura que guarda o meu corpo,
garante o meu sangue, a minha garganta.
O veneno do mal não acha passagem.
Em meu coração, Maria acende sua luz
e me aponta o caminho.Me sumo no vento, cavalgo no raio de Iansã
giro o mundo,
viro, reviro,
Tô no Reconcavo, to em Fez.
Voo entre as estrelas, brinco de ser uma,
traço o cruzeiro do sul com a tocha da fogueira de João Menino
Rezo com as três marias.
Vou além,
me recolho no esplendor das nebulosas,
descanso nos vales, montanhas.
Durmo na forja de Ogum.
Mergulho no calor das lavas dos vulcões,
corpo vivo de Xangô.Não ando no breu,
nem ando na treva,
é por onde eu vou que o Santo me leva…Medo não me alcança,
no deserto me acho.
Faço cobra morder o rabo,
escorpião virar pirilampo.
Meus pés recebem balsamos,
unguentos suaves das mão de Maria,
irmã de Marta e Lázaro
no oásis de Bethania.Pensou que ando só,
atente ao tempo
não começa, nem termina:
é nunca, é sempre!
É tempo de reparar na balança de nobre cobre
que o rei equilibra
fulmina o injusto, deixa nua a justiça.Eu não provo do teu fel,
eu não piso no teu chão,
e pra onde você for, não leva o meu nome não…Onde vai, valente?
Você secou, seus olhos insones secaram
não vêem brotar a relva que cresce livre, verde
longe da tua cegueira.
Seus ouvidos se fecharam a qualquer música,
a qualquer som.
Nem o bem, nem o mal pensam em ti.
Ninguém te escolhe,
você pisa na terra mas não a sente,
apenas pisa,
apensa vaga sobre o planeta.
E já nem ouve as teclas do teu piano.
Você está tão mirrado que nem o Diabo te ambiciona,
não tem alma,
você é o oco do oco do oco do sem fim do mundo.O que é teu já tá guardado,
não sou eu que vou lhe dar…Eu posso engolir você,
só pra cuspir depois.
Minha fome é matéria que você não alcança.
Desde o leite do peito de minha mãe
até o sem fim dos versos, versos, versos…
que brotam no poeta, em toda poesia
sob a luz da lua que deita na palma da inspiração de Caymmi.
Se choro, quando choro e minha lagrima cai
é pra regar o capim que alimenta a vida.
Chorando eu refaço as nascentes que você secou.
Se desejo, o meu desejo faz subir marés
de sal e sortilégio.Vivo de cara para o vento, na chuva
e quero me molhar.
O terço de Fátima e o cordão de Gandhi cruzam meu peito.
Sou como haste fina,
que qualquer brisa verga,
mas nenhuma espada corta.Não mexe comigo, que eu não ando só,
eu não ando só… eu não ando só.

(Maria Bethânia)

quarta-feira, 14 de março de 2012

missing my loves...


I miss them all days, all nights, so much...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"O meu coração é concha de água pura, assim a sirvo, transbordante"

(Dinah, em "A Tenda Vermelha", de Anita Diamant)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

"e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim"





Ainda ontem pensava que não era

mais do que um fragmento trémulo sem ritmo

na esfera da vida.

Hoje sei que sou eu a esfera,

e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.


Eles dizem-me no seu despertar:

" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia

sobre a margem infinita

de um mar infinito."


E no meu sonho eu respondo-lhes:


"Eu sou o mar infinito,

e todos os mundos não passam de grãos de areia

sobre a minha margem."






(Gibran Khalil Gibran)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Negra Fúria

Morre a luz, abafa os ares
Horrendo, espesso negrume,
Apenas surge do Averno
A negra fúria Ciúme.

Sobre um sólio cor da noite
Jaz dos Infernos o Nurne,
E a seus pés tragando brasas
A negra fúria Ciúme.

Crespas víboras penteia,
Dos olhos dardeja lume,
Respira veneno e peste
A negra fúria Ciúme.

Arrancando à Morte a fouce
De buído, ervado gume,
Vem retalhar corações
A negra fúria Ciúme.

Ao cruel sócio de Amor
Escapar ninguém presume,
Porque a tudo as garras lança
A negra fúria Ciúme.

Todos os males do Inferno
Em si guarda, em si resume
O mais horrível dos monstros,
A negra fúria Ciúme.

Amor inda é mais suave,
Que das rosas o perfume,
Mas envenena-lhe as graças
A negra fúria Ciúme.

Nas asas de Amor voamos
Do prazer ao áureo cume,
Porém de lá nos arroja
A negra fúria Ciúme.

Do férreo cálix da Morte
Prova o funesto azedume
Aquele a quem ferve n'alma
A negra fúria Ciúme.

Do escuro seio dos fados
Saltam males em cardume:
O pior é o que eu sofro,
A negra fúria Ciúme.

Dos imutáveis destinos
Se lê no idoso volume
Quantos estragos tem feito
A negra fúria Ciúme.

Amor inda brilha menos
Do que sutil vagalume,
Por entre as sombras que espalha
A negra fúria Ciúme.


(Bocage, in 'Quadras')

terça-feira, 21 de junho de 2011

Anoitecer

É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo

É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.

É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz - morte - mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Quase Azulão

Sobre minhas rendas brancas
caíram umas flores azulão
e se ajeitaram nas minhas ancas
me prendendo assim ao chão

Eu No Sol

Fiquei distante. Estava no Sol...
Se era manhãzinha, eu de olhos entreabertos, absorvia a luz, e tudo que eu via eram os cílios dourados do Sol roçando os meus. Bom dia. Assim, de um sonho para outro. Logo estava quente. E os dias eram quentes, todos...

terça-feira, 31 de maio de 2011

segunda-feira, 2 de maio de 2011

'Para entrar no mundo sem estações'

“Quando o amor vos chamar, segui-o,

Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;

E quando ele vos envolver em suas asas, cedei-lhe,

Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;

E quando ele vos falar, acreditai nele.


Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.

Pois, da mesma forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica. E da mesma forma que ele contribui para vosso crescimento, trabalha para vossa poda”.

(...)

Todavia, se no vosso temor procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,

Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonassem a eira do amor.

Para entrar no mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.

O amor nada dá senão de si próprio, e nada recebe senão de si próprio.

O amor não possui e não deixa de possuir.

Pois o amor basta-se a si mesmo.

Quando um de vós ama, que não diga: “Deus está no meu coração”, mas que diga antes: “Eu estou no coração de Deus”.

E não imaginareis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso.

O amor não tem outro desejo, senão o de atingir sua plenitude.

Se, contudo, amardes e precisardes de desejos, sejam estes vossos desejos:

“De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite;

De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;

De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor;

E de sangrardes de boa vontade e com alegria;

De acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor;

De descansardes ao meio-dia e meditardes sobre o êxtase do amor;

De voltardes para casa à noite com gratidão;

E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos lábios uma canção de bem-aventurança”.


Khalil Gibran

O amor é finalmente

um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta.

(Gregório de Matos)